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Ivan de Souza
Ivan de Souza é vice-presidente da Diretoria Executiva do IBEF SP e diretor da Cincom Systems Brasil.
  Impressão Amigável
 

Aqui é a ética, meu filho!
29/9/2009

Os recentes acontecimentos no Senado brasileiro nos remetem a comportamentos verificados há algum tempo em empresas brasileiras e americanas: a falta de um comprometimento com o bom comportamento, com a ética, com a governança, com a moral. Parodiando um técnico de futebol brasileiro vencedor, que mantinha como bordão a frase “Aqui é trabalho, meu filho”, poderíamos dizer que o que faltou foi alguém com coragem e com moral suficientes para dizer “Aqui é a ética, meu filho!”, fosse para os empresários flagrados com atitudes e ideias que não guardavam relação com as atividades de suas empresas, fosse com os membros da mais alta casa legislativa do Brasil, que a cada dia se mostram menos comprometidos com os valores da verdade, da retidão e da virtude.

Com efeito, vimos há alguns anos dirigentes empresariais que forjavam resultados com o objetivo de inflar lucros que poderiam representar maiores remunerações a eles e a seus parceiros e amigos, não se importando com o impacto que tal comportamento pudesse ter sobre a perenidade das empresas que dirigiam. Mais recentemente fomos surpreendidos com a magnitude de uma crise econômica que atingiu projeção estratosférica, e que foi gerada mais uma vez pela ganância, desta vez de banqueiros americanos que deixaram de cumprir os mandamentos da boa governança, ao proporcionar crédito a pessoas e empresas seguramente incapazes de honrar seus compromissos; tudo isto, mais uma vez, visando o aumento de seus generosos bônus, via criação de lucros fictícios. Reputações foram destruídas, empresas de longa história e alcance mundial foram levadas à falência e governos tiveram que intervir, destinando vultosas quantias a empresas quebradas para salvar ao menos parte de suas economias nacionais e evitar ainda maiores impactos no nível de emprego, e o mundo assistiu a tudo isto perplexo, a cada dia sendo exposto a novas e inacreditáveis situações criadas pela engenhosidade de pessoas que tinham como fim o seu próprio benefício. Assistimos incrédulos ao ressurgimento da famosa Pirâmide de Tanzi, desta vez erguida por um profissional de ilibada reputação no mercado financeiro mundial, ao menos até aquela oportunidade, que proporcionou o maior desastre financeiro de toda a história ao “engolir” mais de 50 bilhões de dólares de incautos e crédulos investidores, atraídos pela dita “reputação” do “nobre” administrador do fundo.

Ainda serão necessários muitos anos para que o mundo se recupere destes sucessivos golpes desferidos por cidadãos inescrupulosos e malevolamente ambiciosos, que causaram até mesmo a “falência” de um país bem avaliado (a Islândia) e o forte abalo do prestígio do império americano. Felizmente o Brasil foi minimamente afetado por todos estes acontecimentos: vacinados contra este tipo de atividade pelo PROER, nossos bancos passaram a se cercar de seguranças adicionais ao concederem empréstimos a seus clientes, o que os fez passarem ao largo de todos os problemas vividos por algumas outrora sólidas instituições financeiras internacionais.

Ainda assim tivemos exemplos em nosso país de comportamentos de empresários e dirigentes em desacordo com a ética e a governança, ao arriscarem o patrimônio e a reputação das empresas em que trabalhavam em transações que fugiam, e muito, do escopo do negócio que administravam, assumindo riscos elevados, levando à ruína empresas solidamente consolidadas na vida nacional, e que tiveram que se fundir a outras para evitar o triste fim da falência.

O mesmo tipo de crise de moralidade atravessa hoje a nossa tradicional casa maior das leis, com trocas de acusações entre seus membros, ameaças até mesmo de agressões físicas, exposição de vergonhosas transações e negociatas, tudo isto sob o olhar perplexo do eleitor, responsável pela condução destes senhores e senhoras aos postos que ocupam. E ainda temos que nos deparar e conviver com pessoas que, sem nenhum voto, também se arvoram de senadores, amparados em suas atividades de financiadores das campanhas dos titulares das cadeiras, os quais as têm que deixar, seja para assumirem cargos em algum nível de governo, seja por renunciarem a seus mandatos por medo de uma cassação, face ao seu comportamento nada recomendável em sua vida pública. Recentemente um grande jornal noticiou que um terço desta casa se encontra sob investigação da mais alta corte de justiça do País, denunciados que foram pelo cometimento de diversos tipos de delitos, a demonstrar sua falta de compromisso com a coisa pública, que juraram defender. E têm sido os “suplentes sem votos” a trazer a mais nefasta contribuição para o descrédito que os nossos senadores experimentam junto à opinião pública, com atitudes totalmente em desacordo com o comportamento esperado de um membro desta classe. Mas ao menos teremos a oportunidade de renovar dois terços das vagas daquela casa legislativa, o que poderá contribuir para a melhoria dos acontecimentos.

E isto nos traz de volta a mensagem principal deste texto: “Aqui é a ética, meu filho!”, que deveria passar a ser o bordão de todos os brasileiros, seja no trato da coisa privada, em nossas empresas, seja no trato da coisa pública, ao cobrarmos e exigirmos das pessoas a quem elegemos que pautem sua vida pelo compromisso com a probidade e a honestidade, tão esquecidas e vilipendiadas nos últimos tempos.

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