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Flavio Ramos
Flavio Ramos é membro da Subcomissão de Governança Corporativa da Diretoria Técnica do IBEF SP. Consultor de Riscos Operacionais, Financeiros e Estratégicos, realizou diversos projetos relacionados à avaliação de ambientes de controles internos e estruturação da função de Auditoria Interna e de Comitês de Auditoria, Riscos e Divulgação. Formou-se em Ciências Econômicas pela Unicamp e Contábeis pela Estácio UniRadial. Tem MBA pelo Instituto de Empresa, Madri, Espanha.
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Momentos históricos que marcaram a evolução da governança e gestão de riscos no Brasil e no mundo
3/11/2009

Os especialistas econômicos têm sido convocados a explicar as razões da crise. Para isso, recorre-se à sua história. Antes de se constituírem a razão da crise financeira mundial, os títulos subprime foram, na verdade, produtos de uma outra crise – a dos sistemas de avaliação de riscos e de supervisão financeira, caracterizados como de grande fragilidade. Todas as crises são como a febre. São indesejáveis, mas não vêm por acaso. Por detrás de cada crise há um elemento desencadeador que, mesmo já sendo conhecido, não recebe a devida atenção. Por bem ou por mal, as crises vêm estabelecer uma nova ordem, como se fosse possível sobrepô-la ao eterno caos.

O mundo nunca viveu em plena estabilidade. Puxando pela memória, quem não lembra das crises financeiras internacionais da década de 1990? A crise da dívida latino-americana, turbulências monetárias na Europa e as crises na Ásia (1997) e na Rússia (1998)? A crise asiática (iniciada na Tailândia em 1997) foi considerada preliminarmente pelo governo dos Estados Unidos como um simples solavanco no mercado financeiro global. Mas um ano depois seus efeitos comprovaram-se devastadores, a ponto de colocar a economia mundial em colapso e ser avaliada como a maior crise financeira dos últimos cinquenta anos.

De forma semelhante à crise financeira atual, o caso da Ásia ocorreu em função do excessivo endividamento do setor privado, resultado de uma euforia injustificada por parte das instituições financeiras de crédito e investimentos. Com o rompimento da bolha, ocorreu uma forte fuga de capital da maioria dos países em desenvolvimento e, sob contágio, a crise alastrou-se pelo mundo afora.

Uma década depois, o que aprendemos com as crises anteriores? Os anos seguintes à asiática foram pródigos de debates entre especialistas, governos e instituições internacionais. Foi notoriamente reconhecida a falha dos mecanismos de administração de risco e de supervisão usados até então, especialmente pela falta de sistemas que permitissem prever as grandes concentrações de riscos em países e setores com grande alavancagem financeira.

Foi também reconhecida a baixa capacidade das instituições privadas e públicas de avaliar as consequências e os riscos de contágio em termos globais. Tal situação permitiu o agravamento das crises, na medida em que favoreceu o comportamento generalizado dos credores e investidores de incluir na mesma categoria de risco outros setores e nações em desenvolvimento. Novamente ficou provado que, quando se trata da gestão de recursos financeiros, a assimetria de informação tem efeitos nocivos que extrapolam as simples questões formais do crédito.

Também não são novas as percepções de que o sistema financeiro evoluiu significativamente a partir da década de 1990, com a criação das agências de classificação de risco e a entrada representativa de novos operadores, produtos e serviços, especialmente no campo dos seguros, derivativos, fundos de pensão, fundos mútuos e os de hedge. Isso ampliou de forma significativa a complexidade do sistema financeiro e, portanto, da administração de eventuais crises.

Medidas de fortalecimento dos mecanismos de supervisão do sistema financeiro e de política monetária nem sempre são bem vistas por autoridades locais, já que não são raros os interesses políticos que se sobrepõem às propostas de fortalecimento e independência da autoridade monetária. Mesmo nos países com maior interatividade global, muitas autoridades ainda são reticentes em adotar medidas de fortalecimento da governança corporativa de instituições financeiras, ou até mesmo as prudenciais recomendadas pelos Acordos de Basileia.

As razões mais comuns desse comportamento são atribuídas à idéia de que o mercado se autorregula ou pela crença de que o processo político (implementação das ideologias) é mais eficaz do que o mercado. Nos tempos de crise, os riscos associados ao mercado, ao crédito e à situação política acabam comumente se confundindo e dificultando adequado diagnóstico. Na prática, os sistemas atuais de supervisão continuam deficientes como eram os da década de 1990, incapazes de acompanhar a dinâmica dos negócios financeiros de forma a antecipar os riscos sistêmicos e adotar medidas em tempo hábil. O exemplo disso é a quebra de bancos norte-americanos em tempo recorde (25 em 2008 e pouco mais de 70 em 2009) sem que os sistemas de fiscalização vissem nessas instituições qualquer risco de colapso.

Não faltaram sinais de alerta, como o caso do National Bank of Commerce, que registrava perdas importantes com investimentos nas gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, entidades que foram consideradas estopins da crise atual. A estratégia comum dos governos é de socorrer as instituições com níveis de capitalização muito baixos. Contudo, para a maioria dos bancos que quebraram nos Estados Unidos a crise foi mesmo de liquidez, e não de capital. A globalidade das operações financeiras encarregou-se de espalhar a crise.

O sistema financeiro mundial não só tem se tornado mais complexo, como também sua configuração está sendo alterada com a entrada de novos players no mercado internacional, especialmente pela expansão dos bancos chineses. Beneficiados pela crise financeira global, estão expandindo agressivamente suas atividades fora do território chinês, ocupando espaços e superando tradicionais rivais. Por mais que haja resistência à sua entrada nos mercados desenvolvidos, a maior representatividade da China na economia mundial torna inevitável a presença dos bancos chineses nesses mercados. Há quem acredite que, em breve, terão grandes cotas de participação nos grandes grupos financeiros americanos.

Independentemente disso, a China assume um papel cada vez mais representativo no contexto financeiro mundial, podendo, em 10 anos, ser responsável por 13% do mercado bancário, 10% do mercado de ações e mais de 5% do mercado de bônus, segundo aponta um estudo do Deutsche Bank. Há esperança de que lições tenham sido aprendidas e que não revivamos o comodismo do período pós-crise asiática. O bom sinal vem do G20, com o acordo de implantação de medidas que possam, efetivamente, reformular e fortalecer os sistemas de supervisão e regulação. Veremos, ainda este ano, como se comportarão seus membros diante desse desafio histórico.

Desta vez, as necessidades de monitorar os riscos financeiros globais parecem ser, de fato, consideradas. A proposta do grupo é de reformular tais sistemas de modo a alcançar todos os mercados, instrumentos e instituições importantes para o sistema financeiro internacional, incluindo aí os hedge funds, além de estender a supervisão às agências de classificação de risco e combater os paraísos fiscais. Se as medidas forem efetivamente implementadas, há grande chance de mitigação dos riscos sistêmicos. Assim, quem sabe a próxima crise, que inevitavelmente virá, possa ser uma simples marolinha.

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