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Denísio Liberato
Denísio Liberato, Menção Honrosa do Prêmio Revelação em Finanças IBEF SP/KPMG de 2008, é pesquisador sênior do Banco do Brasil e mestre e doutorando em Economia pela FGV-SP
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Esquema Ponzi, pirâmides, bolhas e Madoff
4/11/2009

Charles Ponzi nasceu como Carlo Ponzi em Parma, Itália, em 1882. Bernard Madoff nasceu em Nova York, Estados Unidos, em 1938. Apesar de 56 anos separarem Ponzi de Madoff, suas biografias estão intimamente interligadas.

Ponzi emigrou para os EUA em 1903 e, desde o início de sua vida, teve problemas com a justiça, ora falsificando cheques, ora cometendo outros pequenos atos ilícitos tanto nos EUA quanto no Canadá, onde viveu durante algum tempo. Casou-se em Boston, em 1918, e no início dos anos 1920 iniciou o que ficaria sendo conhecido como o mais famoso esquema de fraude.

Madoff começou a ter bom tráfego no mercado financeiro norte-americano a partir da criação de sua corretora de investimentos, em 1960. Essa corretora foi uma das mais importantes de Wall Street. Além disso, foi membro ativo da National Association of Securities Dealers (Nasd), organização autorregulada na indústria de ativos financeiros norte-americanos. A sua empresa esteve entre as cinco principais companhias que impulsionaram o desenvolvimento do Nasdaq, algo que lhe trouxe alta credibilidade.

Ponzi teve uma ideia no início de 19201. Ao chegar aos Estados Unidos, Ponzi "descobriu" em pouco tempo (graças a correspondência que recebeu da Espanha) que os selos de resposta de correio internacional podiam ser vendidos nos Estados Unidos mais caros do que no exterior. Viu aí a clássica operação de arbitragem, ou seja, comprar selos no exterior e vendê-los nos Estados Unidos. Assim começou o rumor e muitas pessoas não quiseram ficar fora do negócio e entregaram capitais a Ponzi.

Embora recolhesse somas astronômicas de dinheiro, e houvesse filas para lhe entregar mais, ele na realidade não comprou selos. Pagava rendimentos de até 100% em três meses, com o capital dos sucessivos novos investidores.

Como as pessoas investiram e obtiveram o retorno prometido no intervalo temporal combinado, o esquema alargou-se. Em fevereiro de 1920, Ponzi obteve cerca de US$ 5 mil, em março já tinha US$ 30 mil, em maio de 1920 tinha conseguido recolher US$ 420 mil e em julho já tinha milhões de dólares.

A "farra" de Ponzi durou até agosto de 1920, quando os bancos e meios de comunicação declararam Ponzi em bancarrota e o governo federal dos Estados Unidos interveio, finalmente descobrindo a megafraude.

Madoff teve uma ideia. Como tinha bastante expertise como market maker2 por meio de sua empresa – a Bernard L. Madoff Investment Securities LLC –, ele criou a Investment Advisory, que passou a oferecer elevadas rentabilidades a seus clientes.

A trajetória de retornos – na faixa de 1% ao mês – atraiu vários bancos, fundos e investidores de diversos países, inclusive do Brasil. Muitos aplicadores acreditavam que o sucesso da carteira de investimento de Madoff estava atrelado ao segredo da estratégia de gestão. Ledo engano. A "caixa-preta", na verdade, escondia um "esquema Ponzi".

A crise das hipotecas subprime pegou Madoff de surpresa, e a pirâmide3 foi desfeita. Após o colapso da crise financeira com a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, duas coisas ocorreram:

• mais investidores resolveram sacar o dinheiro investido;

• menos investidores tinham recursos e/ou estavam dispostos a investir nos títulos de Madoff.

Assim, a relação se inverteu. Como a base da pirâmide não se sustentou, todo o esquema veio abaixo. O dinheiro para resgate não existia, nem estava aplicado nos produtos selecionados pela "estratégia" de Madoff.

O curioso é perceber que grandes instituições financeiras europeias caíram nesse antigo e conhecido esquema. O total de perdas potenciais segundo o The Wall Street Journal é de US$ 50 bilhões, o que faz de Madoff o autor da maior fraude financeira de todos os tempos.

A figura4 ao lado ilustra o esquema Ponzi desenvolvido por Madoff.

Geralmente, esquemas Ponzi e bolhas econômicas são fenômenos interligados. Sua essência reside no "efeito manada": como indivíduos dificilmente toleram estar de fora de movimentos vencedores, nos quais, por exemplo, amigos ou parentes participam, acabam aderindo e seguindo, cegamente, o fluxo ilusório estabelecido. A euforia de uma bolha econômica alimenta o processo, em que sucessivas ondas de investidores obtendo ganhos se sucedem até a bolha estourar e desmascarar o esquema fraudulento.

Entre Ponzi e Madoff, nasceu Harry Markowitz. Ainda como jovem estudante de doutorado, Markowitz revolucionou o mundo das finanças com a sua tese intitulada Portfolio Selection, escrita em 1952. O recado central de Markowitz é que investidores, ao tomarem decisões financeiras, devem diversificar seus investimentos como forma de reduzir a variância de seus portfólios, bem como se orientar pelo binômio risco-retorno que, na esmagadora maioria das vezes, devem andar juntos.

Os esquemas Ponzi, ao oferecerem aos investidores grandes rentabilidades num curto período, jamais poderiam ser entendidos como investimentos de baixo risco com base nos ensinamentos de Markowitz. Por isso, esse sistema funciona apenas a curto prazo, dependendo da quantidade de novos investidores que entrem no negócio. O esquema Ponzi degenera sempre em bancarrota, já que a maioria dos investidores perde todo o seu dinheiro.

Diversas outras histórias tornam evidente que o risco de investimentos nas operações que fazem uso desse esquema é elevadíssimo. O risco torna-se cada vez mais alto à medida que o número de participantes aumenta, uma vez que vai tornando-se mais difícil encontrar novos seguidores.

Ponzi foi para prisão várias vezes no Canadá e nos EUA e, depois de deportado para a Itália, mudou-se para o Brasil, morrendo em janeiro de 1949 num hospital para indigentes no Rio de Janeiro. Madoff está preso e foi condenado a 150 anos de prisão.

Markowitz está vivo e seus ensinamentos continuam sendo base para o estudo de finanças, mesmo que, em momentos de euforia, insistam em enterrá-lo.

NOTAS

1 Um esquema Ponzi é uma sofisticada operação fraudulenta de investimento, do tipo esquema em pirâmide, que envolve o pagamento de rendimentos anormalmente altos aos investidores, às custas do dinheiro pago pelos investidores que chegarem posteriormente, em vez da receita gerada por qualquer negócio real e lícito.

2 Market maker (ou formador de mercado) é o agente ao qual é atribuída a função de garantir liquidez mínima e referência de preço para ativos previamente credenciados, fornecendo eficiência ao mercado. A empresa de Madoff era a maior market maker do Nasdaq e a sexta maior de Wall Street.

3 Pirâmide é um nome alternativo para o esquema Ponzi. O funcionamento de fraudes desse tipo é bastante simples. Basta que novos investidores entrem em ritmo maior do que o de saída de antigos participantes. Dessa forma, o dinheiro daqueles que ainda estão investindo é usado para pagar aqueles que decidiram sacar. Pirâmide justamente porque, enquanto existirem mais pessoas interessadas em entrar (base da pirâmide), a base do esquema sustenta sua operação. Aqueles que sacam (topo da pirâmide) não são peças capazes de desestabilizar a estrutura.

4 Extraída da Bloomberg Magazine de fevereiro de 2009.

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