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Ivan de Souza
Vice-presidente da Diretoria Executiva do IBEF SP e diretor da Cincom Systems Brasil.
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Fatores críticos para a continuidade do crescimento da economia brasileira
9/2/2010

Todas as previsões para a economia brasileira têm sido invariavelmente positivas, com indicação de crescimento do PIB sempre superior a 5% e com inflação próxima ao centro da meta fixada pelo Banco Central do Brasil. A essas expectativas somam-se, ainda, os impactos e reflexos da realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no País, como alavancadores adicionais do desenvolvimento brasileiro. A somatória desses fatores deveria assegurar um cenário positivo para o Brasil nos próximos anos.

Mas será que apenas aspectos positivos podem ser vislumbrados em nosso horizonte? Sem contar o crescimento de 2010, que já se encontra plenamente contratado desde o último trimestre de 2009, alguns outros fatores deveriam servir de alerta para este e para futuros governantes de Estados e da União, que serão eleitos no fim deste ano, uma vez que certamente terão impacto de 2011 em diante.

Neste artigo vou tentar elencar alguns deles:

1) O crescimento dos gastos públicos ao longo dos últimos anos, e mais fortemente em 2009, quando foram contratadas despesas que comprometem fortemente o Orçamento da União, entre as quais, aumento real do salário mínimo, aumento real das aposentadorias e pensões, aumento significativo nos vencimentos dos servidores públicos, além da contratação de milhares de novos funcionários para diversas entidades governamentais. Também pode ser citado nesta rubrica o crescimento do Bolsa Família, tanto em valor quanto em número de famílias atendidas. Todos esses gastos são permanentes, o que engessa, sobremaneira, e até mesmo inviabiliza qualquer tentativa de redução no futuro.

2) A forte valorização do real, que apenas em 2009 foi superior a 25%, tornando os produtos brasileiros pouco competitivos no mercado internacional e comprometendo nossas exportações, e não apenas em termos de produtos agrícolas. Tivemos, em 2009, uma redução significativa do saldo positivo da balança comercial, e estima-se para 2010 uma diminuição ainda maior, havendo até estimativas de déficit nessas transações, fruto da combinação de menores custos para importação com diminuição nas exportações.

3) O crescimento da relação dívida pública/PIB, que pode comprometer a capacidade de financiamento do investimento necessário para melhoria das condições de infraestrutura de nosso país. A esse fator se deve somar a disposição de aumento adicional dos gastos públicos em 2010, ano eleitoral, com a reserva de dezenas de bilhões de reais para obras públicas, especialmente do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), todas, invariavelmente, ligadas à tentativa de eleição da candidata da situação à Presidência da República.

4) A falta ou escassez de mão de obra qualificada, aliada à baixa taxa de investimentos, também é um elemento que pode dificultar a manutenção de um nível razoável de crescimento: e, no curto prazo, não se enxerga mudança neste cenário, em especial no que tange ao mercado de trabalho, uma vez que seria necessário forte investimento em educação para possibilitar aumento na capacidade do trabalhador brasileiro.

A combinação desses fatores, todos facilmente comprovados, certamente impactará os resultados futuros do País. Isso deverá contribuir para passar ao mundo uma imagem um pouco menos glamorosa do que a que estamos acostumados a ver nos últimos dias e meses, quando o Brasil, literalmente, passou a ser a bola da vez.

Os principais impactos derivados dos fatores mencionados neste texto deverão surgir a partir de 2011, quando já teremos outra pessoa como titular no Planalto, a qual deverá lidar com a situação resultante. Assim, deveríamos analisar a postura e capacitação dos dois principais candidatos, para entendermos quem estaria mais preparado para enfrentar os problemas que encontraremos. Enquanto a ministra Dilma Roussef apresenta um viés intervencionista, mais afinado com o discurso do seu partido, o governador José Serra tem um histórico de eliminador de ineficiências, o que representa uma qualidade no manejo de dificuldades. Além disso, a experiência administrativa adquirida por Serra tanto na Prefeitura de São Paulo quanto no governo do Estado suplanta tudo quanto Dilma tem mostrado seja na Casa Civil ou no gerenciamento do PAC, um programa que ainda não conseguiu deslanchar, malgrado todo o esforço desenvolvido pelo presidente Lula nos últimos dois anos. Não se trata de defender um ou outro candidato, mas apenas de avaliar o que cada um pode fazer no enfrentamento de uma eventual situação de crise.

Não penso que devamos diminuir nosso otimismo em relação à continuidade do crescimento de nossa economia, mas acredito que devamos refletir seriamente sobre os pontos que coloquei neste texto, para evitar que os seus impactos comprometam todo o esforço que vem sendo feito nos últimos 15 anos no sentido de se posicionar o Brasil como uma nação com desenvolvimento sustentável e reconhecimento internacional.

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