Adversários na sucessão presidencial são graduados na área
Pela primeira vez na história recente do país, os dois principais candidatos à sucessão presidencial são economistas. É motivo de ironia o fato de a coincidência ocorrer justo no período de melhores resultados nessa área. Mais do que identidade profissional, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) têm em comum o passado de luta contra a ditadura a ministra foi torturada, e o governador paulista, exilado a formação e convicções econômicas ligadas ao campo menos ortodoxo da disciplina, esculpidas em experiências docentes e discentes na Universidade de Campinas (Unicamp).
Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica, diz que Dilma e Serra têm formação e experiência semelhantes: ambos seriam pessoas de realização. Serra tem grande experiência administrativa nos governos federal, estadual e municipal, enquanto Dilma está à frente do primeiro grande plano de infraestrutura do país desde a volta da democracia.
— Eles tentarão se diferenciar pela capacidade de gestão. As políticas não diferem em princípio — opina Almeida.
A ideia de garantir benefícios para impulsionar setores específicos da indústria é comum entre os pré-candidatos, na opinião do professor de economia da Universidade de São Paulo Fabio Kanczuk. Mas a condução da política econômica pode ser bem diferente, adverte Kanczuk. Dilma herdaria de Lula a cautela em relação ao mercado financeiro, garantindo um Banco Central independente, coleira curta para a inflação e pouca influência no câmbio. Já Serra “tem suas próprias ideias sobre política monetária”, e pode tomar atitudes mais arrojadas para estimular a economia.
— Tem a piada de que o Serra é o candidato três por quatro: dólar a R$ 3 e juro em 4%. Ele sustenta a ideia de que se pode derrubar o juro sem perder o controle da inflação — afirma Kanczuk. Esse arrojo, segundo o professor, pode assustar o mercado financeiro e provocar turbulência semelhante à vista nos dias que antecederam o início do governo Lula, quando o dólar bateu nos R$ 4. Tal inversão de papéis – um candidato do PSDB assustando investidores acostumados a um governo do PT – passa longe do raciocínio do presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-SP), Walter Machado de Barros.
— Entre ambos, Dilma tem uma visão mais intervencionista. O Serra acredita na autorregulação. Ele até pode mudar a forma de praticar a política econômica, mas vai manter o câmbio flutuante, o BC independente, as metas de inflação — acredita Barros.
Em vez de a meta ser fixada em 4,5% pode ser em 5% ou mais, exemplifica. Entre os poucos consensos, está o de que o controle dos gastos do governo não será prioridade de Dilma, ao contrário de Serra, de quem se espera um programa baseado em ajuste fiscal. Professor da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite explica que Dilma poderia até ser mais rigorosa com o funcionalismo do que Lula, mas será pressionada pela base no PT.
— Serra terá mais liberdade para fazer o que pensa — afirma Leite.
Dilma: a gerente que faz
Economista pela UFRGS, Dilma Vana Rousseff também passou pela Universidade de Campinas (Unicamp), onde cursou disciplinas de mestrado e de doutorado – conforme a versão refeita depois do rumoroso episódio do currículo turbinado, não completou nenhum. Nascida em Belo Horizonte (MG), começou na capital mineira a militar na resistência armada à ditadura militar e, depois de três anos de prisão, refugiou-se em Porto Alegre, onde fez carreira política no PDT para mais tarde aderir ao PT.
Entre as referências da ministra no programa econômico, despontam Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o próprio ministro, Guido Mantega, e o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli.
Outra referência é o economista e ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, que integrou a equipe que fez o primeiro esboço das propostas de campanha. Também está nesse grupo o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, visto como grande articulador operacional da campanha. Os dois se conheceram e se identificaram na equipe do governo de transição, no final de 2002.
Visto como o fiador da continuidade da política econômica por empresários e representantes do sistema financeiro, Palocci funcionaria também como uma espécie de avalista contra eventuais excessos desenvolvimentistas da candidata. Por parte do partido, Marco Aurélio Garcia foi indicado para centralizar as estratégias e definir a linha do programa.
Também resistente em assumir a candidatura, a ministra tem dado poucas pistas até a aliados sobre seus planos para a economia. Em reunião com o PP, por exemplo, disse que continuidade, para ela, significava avançar. Isso significaria aprofundar os programas sociais e programas como o reforço da cadeia fornecedora de produtos e serviços para o setor de petróleo. Como a chancela do presidente Lula também é um limitador para Dilma – explicitar muitas mudanças soaria como crítica ao padrinho –, uma das poucas diferenças mais clara é sua ênfase na inovação, um tanto ao largo das prioridades do atual presidente.
Serra: o gestor que sabe
Economista formado no Chile, onde se exilou durante o regime militar, José Serra nasceu no bairro paulistano da Mooca. Como estudante do curso de Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), tornara-se presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com ordem de prisão da ditadura, meses depois do golpe de 1964 foi para Santiago do Chile, onde estudou e tornou-se professor.
A exemplo de Dilma, o currículo de Serra também é alvo de polêmica, depois que surgiu a informação de que, em vez de um curso superior regular, teria cursado especialização na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), conhecida pela heterodoxia. Com mestrado e doutorado pela Universidade de Cornell (EUA), voltou ao Brasil para dar aulas na Unicamp.
Há poucas dúvidas de que Serra seja o principal formulador do programa econômico. Entre os poucos economistas com quem debate está Geraldo Biasoto Júnior, diretor executivo da Fundação do Desenvolvimento Administrativo, que nega tanta identidade com Dilma:
– A diferença é grande. No atual governo há absoluta permissividade fiscal. É preciso ter uma situação fiscal que represente controle das contas no curto, médio e longo prazo.
Segundo Biasoto, quem espera de Serra uma orientação econômica semelhante à imputada, sob protestos, ao governo de Fernando Henrique Cardoso pode desistir:
– Serra nunca será neoliberal. Começaremos a fazer política econômica, porque o que existe hoje é política de juro e só. É totalmente passiva e totalmente perdulária.
Além de Biasoto, o ex-ministro João Sayad é apontado como uma referência de Serra em economia, assim como o atual presidente da Sabesp, Gesner Oliveira, e seus secretários do Planejamento, Francisco Vidal Luna, e da Fazenda, Mauro Ricardo Costa. Fora do círculo mais próximo, o presidente do PPS, Roberto Freire tem procurado influenciar a política econômica:
– Serra sempre esteve mais à esquerda de Lula e da candidata dele. A direita escolheu Lula porque era maleável e não tinha projeto. Serra não será um agente dos interesses do sistema financeiro.
|